Bryan permaneceu imóvel. A mulher que aparecera na revelação era alguém que ele conhecia. Era Laura Foster.
Durante alguns segundos, apenas encarou a imagem diante de seus olhos enquanto tentava compreender o que estava vendo. Laura jamais havia sido considerada suspeita. Durante toda a investigação, permanecera ao lado da família, aparentando ser apenas mais uma mãe desesperada em busca da filha. Agora, porém, não restava qualquer dúvida. Fora ela quem entrara naquela casa, realizara o ritual e rompido o selo que mantinha Moloque aprisionado. Graças àquele único ato, a entidade estava encontrando o caminho de volta ao mundo dos vivos.
Sem perder um segundo, Bryan pegou o telefone e ligou para Emma. Assim que ouviu o nome de Laura, Emma saiu apressadamente da sala onde conversava com os pais de Elizabeth e Emily. Abriu a porta sem sequer bater e encontrou apenas Michael Foster, Sarah Mitchell e David Mitchell. Laura não estava mais ali.
Um frio percorreu todo o seu corpo. Ela levou imediatamente o rádio até a boca.
— Atenção, todas as equipes. Bloqueiem imediatamente todas as saídas do distrito. Ninguém entra e ninguém sai até segunda ordem.
Sem esperar qualquer resposta, começou a correr pelos corredores. Abriu salas, verificou depósitos, passou pelo refeitório, entrou no banheiro feminino, depois no masculino, mas Laura parecia ter desaparecido.
Foi então que o rádio chiou.
— Detetive Brooks, aqui é a central de monitoramento. Uma mulher acabou de ser vista caminhando rapidamente pelo estacionamento.
Emma mudou de direção imediatamente.
— Continuem acompanhando pelas câmeras. Estou indo.
Ela atravessou o corredor praticamente correndo. Assim que empurrou a porta principal do distrito, avistou Laura ao lado de um carro estacionado. A porta do motorista permanecia aberta, como se ela estivesse prestes a partir.
Emma sacou a arma.
— Laura! Afaste-se do carro e levante as mãos!
Laura apenas virou o rosto. Então sorriu. Era um sorriso tranquilo, sereno, como se tudo estivesse acontecendo exatamente da maneira que imaginara durante anos.
Emma manteve a arma apontada.
— Eu sei que você descobriu a traição do Michael. Sei que isso destruiu sua família. Mas nada... absolutamente nada... justifica o que você fez.
Laura soltou uma breve risada. Não havia raiva naquele riso. Nem tristeza. Apenas satisfação.
— Você ainda acha que fiz tudo isso por causa do Michael?
Emma franziu a testa.
— Então por quê?
Laura deu mais alguns passos em direção ao carro.
— Porque era meu destino.
Ela ergueu lentamente os olhos para o céu.
— Desde muito jovem, eu sabia que teria uma missão.
Emma permaneceu em silêncio.
— Sempre sonhei em ter duas filhas. Não porque desejasse formar uma família perfeita... mas porque precisava delas. Quando descobri que só conseguiria gerar uma criança, achei que tudo havia acabado.
Fez uma pequena pausa e voltou os olhos para Emma.
— Até descobrir que Michael tinha me dado exatamente o que eu precisava.
Emma apertou ainda mais a arma.
— Do que você está falando?
Laura respondeu sem hesitar.
— Das duas descendentes da família Blackwood.
O silêncio tomou conta do estacionamento.
— Os dois receptáculos.
Ela olhou diretamente para Emma.
— As únicas capazes de trazer Moloque de volta.
Emma permaneceu completamente imóvel. Bryan ainda não tivera tempo de explicar toda a história. Do outro lado da ligação, porém, Bryan e Liam ouviam cada palavra. Dentro da velha casa, o silêncio tornou-se quase insuportável.
Bryan voltou-se para o pai.
— Existe alguma maneira de impedir isso?
Liam permaneceu pensativo durante alguns segundos.
— Os antigos manuscritos escritos por Elijah Carter mencionam apenas uma possibilidade. Quando um ritual dessa natureza já foi iniciado, existe apenas uma forma conhecida de tentar interrompê-lo... Eliminar a pessoa que realizou o ritual.
Bryan permaneceu em silêncio.
— Funciona?
Liam baixou os olhos.
— Nem Elijah tinha certeza. Ele apenas escreveu que era a única alternativa conhecida.
Bryan olhou para Elizabeth e Emily, depois voltou o olhar para o telefone. No estacionamento, Emma continuava apontando a arma para Laura. Suas mãos tremiam. Ela passara toda a vida jurando proteger pessoas. Prender criminosos. Jamais tirar uma vida.
Liam caminhou lentamente até uma das janelas da casa. Os primeiros raios do amanhecer começavam a surgir no horizonte.
Sem desviar os olhos da luz que aparecia atrás das montanhas, falou em tom grave.
— Quando o sol nascer completamente... será tarde demais. — Ele voltou-se para Bryan. — O óleo apenas retardou o ritual. Não impedirá o que está prestes a acontecer.
Bryan permaneceu imóvel. Era uma decisão impossível. Laura continuava parada no estacionamento. Fechou lentamente os olhos. Parecia apenas esperar o amanhecer. Liam respirou profundamente. Também fechou os olhos. Sua expressão mudou completamente.
Então pronunciou uma única ordem em latim.
— Imperium meum exsequere.
As palavras ecoaram pela casa. Naquele mesmo instante, Emma sentiu um choque percorrer todo o corpo. Seu olhar perdeu completamente o foco. Ela tentou dar um passo para trás e não conseguiu. Seu braço começou a erguer-se lentamente. Emma fez força para abaixá-lo. Os músculos do antebraço tremiam. Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Ela ainda estava consciente. Ainda lutava, mas já não conseguia controlar o próprio corpo. Seu dedo aproximava-se lentamente do gatilho.
Do outro lado da ligação, Liam continuava recitando a antiga oração.
Emma fechou os olhos. Então... o disparo rompeu o silêncio do amanhecer.
Laura permaneceu imóvel durante um breve instante. O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto, seus joelhos cederam e seu corpo tombou sobre o asfalto. No mesmo instante um silêncio absoluto tomou conta de Willow Creek. Bryan olhava para o pai sem conseguir acreditar no que acabara de acontecer. Liam permaneceu imóvel. Seu rosto demonstrava que aquela decisão o acompanharia pelo resto da vida.
Durante alguns segundos, ninguém disse absolutamente nada. Então um som distante começou a ecoar pelas ruas. Era uma risada infantil. Logo veio outra. Depois mais uma. Em poucos instantes, vozes de crianças voltavam a preencher toda a cidade. Portas começaram a se abrir e pais saíam desesperados de suas casas.
Um a um, os meninos e meninas desaparecidos reapareciam vivos pelas ruas, correndo na direção de suas famílias. O choro tomou conta de Willow Creek e dessa vez, porém, era um choro de alívio.
Bryan respirou profundamente e voltou os olhos para Elizabeth e Emily. As duas sorriam novamente. Pela primeira vez desde o início daquela noite, parecia que tudo havia terminado.
Então voltou os olhos para Liam. Seu pai permaneceu observando a cidade por alguns segundos antes de respirar fundo.
— Acabou... — Fez uma breve pausa. — Mas nós precisamos conversar.
Bryan franziu a testa.
Pela expressão do pai, compreendeu que aquela conversa mudaria para sempre tudo o que acreditava saber sobre a própria vida.